CPI
do Erro Médico ouve denúncias de
Radioterapeuta de Santos
Os membros da CPI
do Erro Médico ouviram nesta terça-feira,
17/11, o depoimento do responsável pelo Serviço
de Radioterapia da Benificência Portuguesa
de Santos, Joaquim Gomes de Pinho. Sócio
da Unidade de Radioterapia e Megavoltagen de Santos
(Unirad), empresa arrendatária dos serviços
de radioterapia do hospital santista, Pinho reconheceu
várias irregularidades praticadas na unidade
por seu sócio Hilário Cagnacci.
Segundo Pinho, em 2006, a Comissão Nacional
de Energia Nuclear (CNEN) teria autorizado o serviço
de radioterapia, apesar da constatação
de que havia baixo rendimento da fonte de cobalto.
Em 2008, o aparelho de radiologia antigo teria sido
substituído por outro, que também
precisava de novas pastilhas de cobalto, cuja importação
teria sofrido entraves burocráticos. Na época,
o mesmo CNEN apontou irregularidades e pendências
no equipamento sob operação. O hospital
teria então decidido assumir os encargos
financeiros para a corrigir as inconformidades e
os serviços de radioterapia tiveram continuidade.
Em 2009, a Vigilância Sanitária do
Estado e a do município de Santos fizeram
vistoria ao local, constataram a persistência
de inconformidades e recomendaram que os serviços
de radioterapia não aceitassem novos tratamentos,
limitando seu funcionamento aos tratamentos já
em curso.
A decisão de suspender o funcionamento do
equipamento de radioterapia da unidade foi tomada
somente em março de 2009, em acordo firmado
pela diretoria técnica da Benificência
Portuguesa de Santos, Direção Regional
de Saúde de Santos e Vigilância Sanitária.
O deputado Uebe Rezek (PMDB) ponderou que mesmo
com a constatação do baixo rendimento
da fonte de cobalto, os tratamentos continuaram
a ser feitos no equipamento. "Conscientemente,
os profissionais sabiam que dificilmente conseguiriam
aplicar dosagem terapêutica. Então
por que continuaram?"
Segundo Pinho, os aparelhos tinham capacidade para
fazer tratamento com dosagem efetiva. Ele reconheceu
que, embora soubessem do baixo rendimento, não
houve a interdição do equipamento.
Estes continuaram a funcionar com o devido cuidade
para que os pacientes fossem expostos por mais tempo
e com mais proximidade à fonte de radiação.
O deputado Pedro Tobias (PSDB) perguntou a Pinho
se ele tinha conhecimento da Norma da Agência
Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa)
que estabelece o limite de 50cgy/min (ssd 80cm)
para o rendimento mínimo de uma fonte de
cobalto para terapia em pacientes. O radioterapeuta
disse não ter conhecimento da norma.
Os equipamentos da unidade de radioterapia do hospital
santista apresentavam rendimento de até 25,6
cgy/min. Isto implica que, para ter eficácia,
o tratamento radioterápico nesses equipamentos
exigia que o paciente permanecesse mais tempo exposto
a irradiação, imóvel e com
riscos de sofrer queimaduras e outras lesões.
O deputado Fausto Figueira (PT) leu relatório
da Vigilância Sanitária em que o órgão
conclui que os serviços prestados pela Unirad
ofereciam alto risco à saúde pública.
Figueira também apontou denúncias
de que a unidade teria recebido pacientes para radioterapia
conformacional, apesar de os equipamentos disponíveis
não permitirem esse tipo de tratamento.
Pinho atribuiu a seu sócio Hilário
Cagnacci o uso não ético do nome da
Beneficência Portuguesa para forjar tratamentos
não existentes. Ele informou que o hospital
passou a receber denúncias de que pacientes
teriam passado por tratamento de radioterapia conformacional,
embora fosse impossível isso acontecer naquela
unidade com os aparelhos disponíveis. Pinho
acrescentou ainda que seu sócio chegou a
simular sessões de radioterapia com pacientes
com o aparelho desligado.
Desde março de 2009, depois de a Beneficência
abrir sindicância e suspender o contrato de
arrendamento, os fatos passaram a ser investigados
pelo Ministério Público, que apura
as responsabilidades.
Agora a CPI quer ouvir o médico Hilário
Cagnacci. O deputado Fausto Figueira apresentou
requerimento para que os outros dois sócios
da Unirad sejam convocados para depor na comissão.
O deputado Milton Flávio (PSDB) acrescentou
que cada órgão fiscalizador tem sua
cota de responsabilidade sobre a permanência
dessas irregularidades. "Preocupa-me o modo
como deixaram continuar funcionando equipamentos
sem condições, muitos deles adquiridos
por doações de instituições
que modernizam os seus aparelhos".
Os membros da CPI concordaram que o foco das investigações
doravante deve se concentrar nos casos de irregularidades
constatados nos serviços de radioterapia
no Estado de São Paulo. Eles aprovaram requerimento
para que a Secretaria da Saúde, a Anvisa
e o CNEN informem sobre a situação
de todos os equipamentos de radioterapia em funcionamento
em São Paulo, com a descrição
da unidade de tratamento e os profissionais responsáveis
por elas, bem como informações sobre
aparelhos nos quais foram identificadas inconformidades
em relação às normas.
A CPI pretende ouvir também os físicos
e os médicos responsáveis pelos serviços
de radioterapia dos hospitais da Sociedade Portuguesa
de Beneficência de Santos, do "Manuel
de Abreu", administrado pelo Hospital Estadual
de Bauru, e Hospital das Clínicas de Marília.
|
|
|
Joaquim Gomes de Pinho
e Deputado Bittencourt
|